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Onofre Gusmão ComentaA VOZ da VERDADE.Onofre Gusmão Comenta
:: Terça-feira, Setembro 13, 2005 ::
É PRECISO MUITA CORAGEM
Soube hoje que o segundo furacão enviado pelos norte-coreanos, este para a costa de North & South Carolinas, começa a arrefecer e não deve causar tanta destruição quanto o anterior, que atingiu em cheio aquele pantanoso pardieiro sulista. Vê-se logo que o líder do terceiro vértice do Eixo do Mal não tem tanta coragem quanto ameaça. Bastou um aceno da parte de Mr. W. Bush em querer civilizar também aquele rincão remoto que o psicopata logo sossegou. Espera-se para breve um pedido de desculpas.
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Gusmão às 11:35
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:: Segunda-feira, Setembro 12, 2005 ::
CONDOLEENZIAS
Finalmente, depois do choque inicial, atrevo-me a escrever algo sobre o falso furacão que arruinou Nouvelle Orleans. É bem verdade que foi exterminada a parte mais feia e pobre da América (excetuando-se, é claro, Miami -- se bem que aquilo lá só é a América nas terríveis soaps brasileiras), mas ainda assim me dói demais ver que, uma vez mais, a América foi atingida em seu território por um fator externo e imprevisível. Nosso Presidente, coitado, que descansava do árduo fardo de levar o mundo nas costas, teve que interromper seu mui merecido repouso e iniciar as ações imediatas. Fontes seguras me garantem que tropas começarão a ser enviadas para a Coréia do Norte ainda neste mês, posto que lá foi descoberta uma usina de controle climático capaz de, entre outras coisas, criar devastadores furacões como este Katrina. Torçamos para que então, eliminado o Eixo do Mal, possamos respirar em paz.
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Gusmão às 17:28
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NEW YORK SEVERINA
Então Severino, o mais ofegante e suado representante da classe a que pertence o Caboclo de Nove Dedos e outros que tais, deu uma escapadinha para New York tão logo soube que também havia sido pego por essa grande onda moralizadora que assola o país. Não adianta fugir, bicho feio e limitado, pois nada escapa da sanha justiceira dos Donos do País quando a oportunidade se faz presente. Já era muito justo e necessário que os bons homens deste país começassem a se mexer e a correr atrás do prejuízo que estavam levando quando outro tipo de gente resolveu sentar-se no trono. Aliás, o Caboclo deve estar muito acostumado com o outro sentido da expressão "sentar-se no trono", o chulo. Desde que lá se aboletou, c'est constant la merde.
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Gusmão às 17:20
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:: Quarta-feira, Junho 01, 2005 ::
É NECESSÁRIO MAIS
Dois fins de semana atrás, fui ao encerramento da Enésima Bienal do Livro (mesmo sob chuva) para provar a minha positiva companheira L. M. que pobre só se interessa por algo aparentemente mais culto - por mais que livros e cultura há muito já não sejam sinônimos ou mesmo correlatos - quando aparece na televisão. "Estás sendo muito pessimista, Onofre", dizia ela durante todo o percurso. Eu não lhe respondia. Limitava-me a bebericar a garrafa de brandy que L. M. mantinha acondicionada na geladeira de sua limousine.
A chegada foi tranqüila. A chuva, felizmente, mantivera grande parte da massa em seus domicílios - pobre, quando chove, tem que ficar em casa vigiando as goteiras no teto - e pudemos entrar sem muito empurra-empurra. Minha credencial de Secretário Municipal de Cultura de São José de Ubá garantiu-me acesso livre e inúmeros rapapés que certamente minoraram um pouco o desconforto de caminhar por quilômetros entre livros desinteressantes. Desnecessário dizer que, em menos de quarenta minutos, já estava aborrecido, mas L. M., em seu afã de aculturar-se, puxava-me de um lado para outro para assistir às sucessivas palestras que ocorriam simultaneamente em pontos opostos dos três pavilhões. Apesar da diversidade de palestrantes e de temas propostos, resumidamente falava-se apenas de dois assuntos: o umbigo dos autores ou o complexo problema de levar o livro ao povo. O terceiro momento era ao final das palestras, quando os autores viviam seus minutos de fama autografando livros recém-adquiridos por gente que jamais havia ouvido falar neles.
-- Aqui, ó. Edição autografada do ............
-- Conhece?
-- Ô. Gente muito boa. Apertou minha mão e tudo.
-- E o livro, é bom?
-- (após alguns segundos de silêncio embaraçoso) Ah, mas o cara é muito gente boa!
Mas digressiono. Senti falta de um espaço para very important people como eu, com tapetes de pele de bisão e poltronas de veludo nepalês, onde, ao som de um fino jazz, pudéssemos embebedar-Nos com beaujolais. De acordo com os preços cobrados pelas guloseimas servidas durante o evento, pude perceber que já se investe na entrada limitada de pobres (já que o pessoal que só vai pela merenda sofre um grande prejuízo). Mas é necessário mais, senhores, sede mais ousados!
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Gusmão às 13:33
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:: Quarta-feira, Abril 20, 2005 ::
SETE PARA DOIS
Ontem à tarde, saindo do gabinete aonde compareço uma vez por semana, ouvi dois caipiras conversando sobre a eleição do novo papa, o cardeal Ratzinger, com quem já tive o prazer de encontrar numa ensolarada Münich de 72, degustando Bratwürst e cerveja quente. Lamentavam eles que não houvesse sido eleito um cardeal brasileiro, que iria sustentar bravamente a igreja católica contra a desesperadora invasão de evangélicos.
-- Magina! Um papa brasileiro! Ia cabar com esses crente tudo.
-- Ô ia.
E continuavam saboreando sua cachasse. Não apartei porque tenho nojo a esse tipo de gente (e é só o que encontro nas ruas de terra de São José de Ubá), mas não poderia deixar de registrar meu mal-estar. Um papa brasileiro, par Dieu, que mal não faria à humanidade! Tantos séculos de acumulação de riqueza e poder pela Sacrossanta Igreja Católica certamente seriam arruinados em viagens semanais ao Brasil, em financiamento de "movimentos sociais" (sic) ou demais atrocidades cometidas por quem chega a uma posição alta e se deslumbra. Movido pela ânsia de reconhecimento exterior (aquele velho fetiche que os brasileiros têm de que um desenvolvido os ponha no colo e faça "bilu-bilu" em seus beicinhos), o papa brasileiro tentaria agradar a gregos, troianos e possivelmente até romanos e fenícios, esquecendo de seguir a linha constante que a Sacrossanta Igreja Católica deve manter. Isso sem falar, é claro, nas aparições constantes do papa nas Copas do Mundo.
Não, senhores, deixai de estupidez. Ratzinger é, certamente, o melhor nome para manter a tradição da Sacrossanta Igreja Católica, sua riqueza e poder. Distribuição inútil a título de justiça social, já basta no dia de Cosme e Damião. Além disso, o novo papa me rendeu um belo prêmio de 5 mil libras.
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Gusmão às 10:11
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:: Quinta-feira, Abril 14, 2005 ::
AT LAST
Sim, senhores, mais de um ano depois do melancólico texto abaixo, volto à baila. Findos todos os percalços que tive que transpor (não imaginais quão difíceis são eleições municipais), estou livre para seguir com este espaço internettique de crônica. Já confortavelmente sentado na minha cadeira de Secretário Municipal de Cultura de São José de Ubá, responsável pela programação cultural de um município de pouco mais de mil habitantes cujo principal acontecimento é a festa do boi-pintadinho, tenho tempo suficiente para ocupar-me de minha flânerie. Enfim.
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Gusmão às 21:25
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:: Quarta-feira, Fevereiro 18, 2004 ::
CONVÉM AVISAR
Fico muito grato ao leitor Deivison Alves que, em comentário ao texto anterior, notificou que os arquivos estavam inacessíveis. O problema já foi resolvido pela sempre prestimosa equipe da tecnologia que me cerca. Quanto às medidas ressaltadas por meu amigo e representante legal, o Gracindo, a respeito da utilização de meus textos, é verdade. No entanto, basta a creditação da fonte para que tudo esteja em ordem -- meu desejo, antes de tudo, é fazer-me presente na mente dos jovens. Dar-lhes um guru nesse mar de clichês.
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Gusmão às 12:11
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OS MENDIGOS DE FORD
Desde minha conversa com Clara, a criada (publicada aqui algumas semanas atrás), resolvi preencher minhas horas livres entre uma partida de bridge e outra com um hobby mais bem-visto e também condizente com pessoas da minha estirpe: a sociologia. Tenho trazido alguns exemplares de pobres (bem contidos, é verdade) para estudo -- cheguei mesmo a erguer um cercadinho no quintal para mantê-los bem presos enquanto os submeto à metodologia científica. Pude notar, nesse breve período, uma tendência bastante interessante entre os pedintes: o fordismo.
Pelo que posso me lembrar da época em que ainda passava por lugares habitados por mendigos, era de praxe entre eles o implorar verbal e físico. Jogavam-se no chão, contorcendo-se, com as bocas desdentadas implorando um pão velho ou alguns centavos para a cachaça. O transeunte, se excessivamente enojado (já que não vejo como alguém possa sentir-se de outra forma), podia repelir o monstro à altura.
No entanto, o tempo passa e a modernidade alcança todos, mesmo os mendigos. Agora, para alcançar mais resultado em menos tempo, os pedintes usam papeizinhos para facilitar o serviço. Fazem várias cópias (chéroques vagabundas) de uma frase padrão, normalmente lamentando sua situação de penúria e ressaltando que, se tivessem a oportunidade, trabalhariam (sic), e entregam-nos à população. Segundo me contou um dos espécimes estudados, a tática normalmente é abordar ônibus ou bares e entregar os papeizinhos a todos que lá estiverem sem dar-lhes tempo de reagir. "O ideal é pagar eles no susto", resumiu o espécime. Espera-se, então, algum tempo até que a maioria das vítimas recobre-se do espanto e termine a leitura para se "passar a sacola", como se diz no jargão da espécie.
Segundo minhas análises estatísticas, os mendigos conseguem pedir para 40% mais pessoas num período de tempo 65% menor, potencializando seus ganhos em até 600%. Tanta prosperidade já começa a levar os pedintes a se organizarem em cooperativas -- o que provoca algum ressentimento entre os mais ortodoxos, que preferem manter-se autônomos. Estes, no entanto, podem ser facilmente pacificados com algumas esmolas dadas pelos mendigos mais abastados.
O próximo passo, segundo o líder de uma cooperativa que também esteve submetido a estudo, é solicitar, junto ao Ministério do Trabalho, que a mendicância seja oficialmente reconhecida como atividade profissional. Com as cabeças pensantes (sic) que atualmente habitamo Governo, não duvido que isso aconteça muito em breve. Afinal, o espetáculo do crescimento se faz com empregos.
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Gusmão às 11:21
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:: Terça-feira, Fevereiro 03, 2004 ::
APENAS ANOTAÇÕES ALEATÓRIAS
Luvas de borracha. Cacos de vidro. Cheiro de amônia e desinfetante. Não importava mais, nada importava mais, apenas a intensa sujeira deixada por eternas gerações de animais carnívoros herbívoros onívoros que se refestelavam em meio às próprias fezes e tripas e orgarmos múltiplos que rolavam por suas coxas abaixo. Qual seria o novo engano cometido por tal espécie abominável? Não se sabia, jamais se saberia. Era apenas um gole estouvado. Estou. Estouvado. Estufado.
Acreditas em mim, mamã?
Seria ele mais alguém inconseqüente e inconsistente, fedendo a sabonete e querosene, que não encontrava espaço para respirar? Risadas. Gargalhadas. Gordos escrotos sorrindo, as banhas pulando garganta afora numa pulsão mórbida e nociva. Jesus! Jesus!, bradavam os mais exaltados. Há que se aguardar na fila. Todos terão a sua vez, declarou muito assoberbado o sadomasoquista de terno de tafetá e pantufas de macaco. Fizera um retorno triunfante, dias antes, carregado pela multidão de coelhos sem face. Tinha suásticas nos olhos e âncoras nos tornozelos. Não sabia muito bem o que era o que, mas enganava muito bem.
Amônia/Insônia/Amoníaco
Risoles de camarão inconsciente. Um eco solto, bradando pelo espaço, repercutindo em nada. O vácuo é nulo e nele encontramos o zero absoluto de Kelvin, Calvin, Haroldo, Hobbes. Whaddafuck. Escorpiões em Toledo. Maricones em Torpedo. Pêssegos em calda, caudalosas caudas de carnaval. Experi-menta! Experi-menta! Experi-menta! É muito seguro jogar sozinho, é lógico, simples soldados em fila, mas nada mais é doce. Não há nada doce para se jogar fora nem por que se morrer nem que seja belo para se viver. Acreditas? Acreditas na sua cabeça?
I can go with the flow but it doesn't matter anymore.
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Gusmão às 23:32
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:: Quarta-feira, Janeiro 28, 2004 ::
UM DIA NEGRO NA VIDA DE CLARA
Não sei se algum de meus preciosos leitores já desfrutou o encanto de tomar parte em um torneio de bridge. Sei que nem todos aqui têm a nobreza de espírito, a fineza de temperamento (embora muitos se esforcem) e, principalmente, o coração forte o bastante para suportar as ininterruptas emoções deste fino esporte. Exatamente por isso, a cada rodada é realizado um intervalo, para que os competidores possam recuperar suas forças.
Foi num destes intervalos, enquanto sorvia delicadamente um cálice de beaujolais, que fui abordado por uma amiga de vários torneios, algumas dezenas de pontos atrás de mim. Temi por minha integridade física, posto que os perdedores às vezes se desesperam em campeonatos -- principalmente se tão disputados quanto aquele -- mas logo vi que nada havia a temer. Ciosa de minhas habilidades comunicacionais, ela desejava tão-somente que pacificasse o espírito de Clara, sua aia, que a acompanhara ao torneio e, em vez de ir à cozinha palrar com os demais lacaios, permanecia encostada num canto, muito amuada.
Sua dona confidenciou-me que Clara, normalmente muito alegre e disposta, estava daquela maneira desde o último domingo. Não se sabia o motivo, e minha amiga tinha medo de perguntar-lhe diretamente. Desejava, então, que eu usasse de minha psicologia para descobrir a razão de tanta tristeza. No mesmo momento objetei -- ora, um pobre não precisa de tais psicologias. Mas ela insistiu tanto, com tão bons argumentos, que assenti e acerquei-me da criada.
Sentei junto a Clara e puxei assunto. Ela sorriu sem graça, mas não pôde resistir a meus psicologismos e logo nos pusemos a conversar sobre o que a afligia. Foi uma conversa proveitosa. Tão logo acabou sua história, ela pareceu repentinamente aliviada e foi imediatamente à cozinha encontrar seus semelhantes. E seu conto reproduzo-o aqui, pelo pitoresco do enredo. Obviamente ele foi reescrito num português castiço, já que O. G. é um homem de letras.
Abro a porta de casa. Sobre a mesa da cozinha, o relógio indica onze e meia. O chão já cheio de gente, cinco filhos, três cunhados e a sogra, além do cachorro. Não dá pra acender a luz, senão todo mundo acorda. Mas com jeitinho dá pra passar sem perturbar ninguém, mesmo no escuro. Um pé lá, um pé cá, alguns esbarrões, mas nenhum sono interrompido até a porta do quarto. Giro a maçaneta. Trancada. Bato na porta. Baixinho, pra não atrapalhar ninguém. Carlão não vem abrir. Encosto o ouvido e ouço seus roncos altos, roncos de quem terminou a noite no bar. Coitado. Tomara que não tenha apanhado como da outra vez. É melhor nem chamar de novo, porque se ele acorda eu vou receber o que mereço. Com jeitinho, me acomodo num canto da sala. Se lembrar de não esticar as pernas, não vou perturbar ninguém.
O despertador toca no meu ouvido. Quatro horas, hora de acordar. Levanto a cabeça. Todos ainda estão deitados no chão. Levanto e vou com cuidado até o banheiro tomar um banho frio para acordar de vez. Mas não tem água. A companhia deve ter descoberto e eliminado a ligação clandestina que fizemos. Não faz mal. Se eu chegar cedo, a patroa me deixa tomar banho antes de começar a trabalhar.
Volto para a sala, enfio uma roupa qualquer na bolsa e abro o armário para fazer um café. É importante que esteja bem forte, para ficar acordada durante a viagem para o trabalho -- tenho medo de ser assaltada -- mas não acho pó. Lembro-me então que a maior parte do salário já foi gasta com contas atrasadas e não pude comprar nada além do necessário. Não tem problema, afinal muito luxo estraga as pessoas. Muito melhor é fazer uma refeição simples, só um pedaço de pão de ontem com manteiga. Pelos buracos do teto, vejo as estrelas. Pena que ninguém em casa esteja acordado para ver também.
Olho novamente o relógio -- quatro e quarenta, já estou atrasada. Saio de casa, fechando a porta devagarinho, e começo a descer o novelo de ruelas até a avenida lá embaixo. Quando chego mais ou menos na metade do caminho, um menino me avisa que é melhor não seguir por onde ia porque a polícia estava chegando e os rapazes do movimento já estavam a postos. Melhor seria voltar até o topo do morro e descer pelo outro lado. Não haveria mais problema em passar por lá, porque desde a semana passada a gerência da nossa comunidade e a da comunidade de trás são parceiras. E o caminho, apesar de muito mais longo, era também mais agradável -- a prefeitura havia cultivado alguns jardins ao longo da descida.
Enfim, chego ao pé do morro. Falta apenas atravessar a avenida. Cinco e quinze, pistas livres, os carros aproveitam para acelerar. É tão bom poder andar na velocidade que se quer. Infelizmente, para mim fica difícil atravessar o asfalto até o outro lado, onde fica o ponto do meu ônibus, mas a segurança deve vir sempre em primeiro lugar. Espero cerca de dez minutos até haver um espaço de tempo razoável para atravessar e, quando chego ao ponto, o ônibus das cinco e meia acaba de partir.
Afinal chega outro ônibus. Está atrasado, e o motorista quase não pára, para não perder tempo. É com esforço que consigo subir no veículo em movimento, atrapalhando-me com minhas bolsas de tal maneira que quase caio de costas na avenida. Ninguém manda ser tão enrolada. Pago a passagem com meu dinheiro honesto e suado -- não tenho essa história de vale-transporte -- e me sento num dos bancos da frente. Muita gente reclama do preço da passagem. Até concordo que seja meio cara, mas as pessoas não conseguem entender que as empresas de ônibus também têm que se sustentar, e já ouvi dizer que elas perdem muito dinheiro com os velhos e estudantes que viajam de graça. Apesar da hora, o ônibus está cheio. Não faz mal. Gosto de estar próxima das pessoas.
Na estação, uma multidão se aperta à espera dos trens, que sempre se atrasam. Pelo menos há a garantia de que o maquinista não vai correr e nós podemos viajar em segurança. Espremo-me o melhor que posso, eu e minhas bolsas, à procura de um espaço na composição. Partimos. Nunca consegui ver a paisagem pela janela, elas sempre estão ocupadas por alguém sentado, segurando-se sabe-se lá onde. Sinto que alguém se roça por trás de mim durante todo o percurso, mas não consigo ver quem é -- a falta de espaço me impede. Fecho os olhos e imagino o galã da novela.
O trem, chega, afinal, à Central. Olho o relógio. Já são quase seis e dez, saí atrasada de casa, não devia ter enrolado tanto. Pego um ônibus no confuso terminal e ponho-me a caminho do trabalho.
Algumas quadras antes de chegar, três pivetes sobem pela porta dianteira do ônibus. Um deles tem uma pistola e ameaça todos os ocupantes. Uma senhora à minha frente passa mal, outra se indigna e rumina pragas solitária. Um dos pivetes aponta a pistola para sua cabeça e ela se cala. Fecho os olhos, nervosa, esperando-os descerem. Salto ainda um ponto depois do deles, para que ninguém pense que estávamos juntos. Deus que me livre. Não tem problema se vou ter que andar mais de dez quadras até a casa da patroa. Caminhar faz bem.
Chego em frente ao prédio. Um relógio na rua indica sete e dezessete, estou atrasada. Entro e tomo o elevador de serviço -- exclusivo de banhistas, cachorros e domésticas. Quando soube que, além de nós, só os juízes têm elevadores exclusivos, fiquei toda boba. E ainda dizem que empregada não tem nenhuma alegria. Sete e vinte. Toco a campainha.
A patroa me recebe aos gritos. Não adianta tentar explicar o que aconteceu, para ela é tudo desculpa de gentinha preguiçosa. E deve ser mesmo. Não tiro sua razão, se meu marido ganhasse bem como o dela também ficaria louca para gastar dinheiro na rua e deixar todo o serviço de casa para os outros. Logo depois, ela sai. Ficamos então só eu, as crianças -- uns anjinhos que adoram chutar minhas canelas -- e o cachorro. Visto minha roupa de trabalho e começo meu serviço.
O tempo passa até as cinco da tarde. Estou com um pouco de fome -- o cafezinho na hora do almoço não foi suficiente -- , mas esqueço-a ao espiar de relance o jogo da seleção que o filho mais velho da patroa vê em seu quarto. Na verdade, mais escuto que vejo, mas é suficiente para acompanhar cada minuto da vergonhosa derrota do Brasil. Que humilhação. Tenho vergonha de ser brasileira.
:: Redigido
carinhosamente por Onofre
Gusmão às 16:24
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